1935

Desenho do Flowsofly

1935

Fez morada em meu coração.

Angela caminhava em direção à sala de estar a procura do seu marido, mas abriu a porta e não encontrou ninguém lá. Havia apenas uma xícara de café morna na mesa de centro e uns livros jogados no chão. Um vento gelado soprou da porta de vidro e percebeu que estava entreaberta. Abriu as cortinas e o encontrou no jardim. Seu coração acelerou. Colocou a mão dentro do casaco e olhou bem para aqueles exames. Era hora.

Quando percebeu que estava com o cachorro no colo, caminhou silenciosamente para escutar o que ele falava. Ora, Maquiavel… você sabe que a mamãe não gosta. Angela sorriu. Eles decidiram por aquele nome na época em que se conheceram. Ambos amantes da filosofia, tiveram o seu primeiro encontro em uma reunião na casa de seu pai, Angela servia o café enquanto os homens discutiam O Príncipe. Ela estava um pouco desconfortável por querer participar, mesmo quando sua mãe lhe dizia para se calar. Seu pai, que a conhecia muito, provocou: o que acha, Angie? E foi naquele momento que tudo começou.

Eles debateram a noite inteira, seu marido era aluno de seu pai na época, ficou encantado com Angie desde a primeira palavra. Para conquistá-la, lhe dizia “como é incrível ouvi-la falar”. Mas mal sabia ele o quanto ela adorava sua voz. E mesmo agora, nada soava mais incrível do que escutá-lo falando, ainda mais daquele jeito. Por ora, pensou. Cruzou os braços e parou ao seu lado. Estava nervosa, mas adorou observar aquela cena; ele continuou falando, falando, falando. Conversava sobre a sua tese -que tentava terminar- como se o Maquiavel pudesse respondê-lo. Aquilo fez com que Angela tivesse seu coração quase saltado pela boca.

Enquanto acariciava o cachorro e olhava para o céu estrelado, se perguntava como uma noite tão fria podia ser tão linda? Ainda mais o que estava por trás dela, afinal, sua esposa tentava contar-lhe um segredo. Infelizmente, as palavras não saiam da sua boca. Queria que aquele momento fosse perfeito. Suspirou.

O Maquiavel quis ir para o chão. Ótimo. Algo para desocupar-lhe. Seu marido passou a mão em sua volta, abraçando-a, repousou os lábios em sua testa. Eu te amo.Eles ficaram ali por um longo tempo. Queria aproveitar o máximo possível. Até que o momento perfeito apareceu.

– Consegue enxergar desenhos nas estrelas?

– Isso não se faz com as nuvens?

– É com o que a gente quiser fazer.

Ele sorriu. Angela tinha um jeito irônico e persuasivo. Perguntou porque queria instigá-la. Seu marido adorava, mas não compreendia onde ela queria chegar, então, deixou que a conversa fluísse.

– O que você vê?

– Uma cruz.

Agora sim tudo parecia ainda mais confuso. Ele retirou os braços de sua volta e encarou o céu. Podia ver milhares de cruzes, de várias direções e tamanhos. Era algo muito vago e parecia não fazer sentido. Angela sorria ao olhar para ele. Ela conhecia bem aquele franzido em seu olhar. Era a dúvida. Bastante expressivo, adorava quando deixava-o curioso.

– Veja – aproximou-se dele e apontou para o céu – aquela cruz ali.

– Vi.

A ponta de cima da cruz tinha uma estrela grande que parecia brilhar mais que as outras. A estrela do seu lado esquerdo, bem próxima a primeira, tinha um tamanho um pouco menor, mas brilhava tanto quanto. A estrela mais abaixo era pequena, pouca luz, quase ofuscada, brilhava constantemente. Por fim, a estrela no lado direito, meio torta, quase próxima demais a estrela maior de cima e a da direita, tinha um brilho mais suave. Eles não disseram nada por um bom tempo. Mas o coração de Angela parecia explodir.

– Ela se parece conosco, não acha?

Agora com certeza absoluta seu marido não sabia onde ela queria chegar. Dentre milhões de estrelas esparsas que conseguiam ver, no meio de outras trilhões que não podiam enxergar, Angela escolhera aquelas quatro, um pouco mais afastadas, em formato de cruz, para dizer que “parece conosco”. Seu maior desafio foi descobrir o que significa “parece conosco”. Nem Sartre poderia prever tamanha angústia. Ele sorriu. Ela estava fazendo de propósito.

– Explique.

– Ali – pegou a sua mão e juntos apontaram uma por uma no céu – aquela estrela de cima é você, maior que as demais, porém não brilha mais que a da direita, que seria eu. Elas estão bem juntinhas, assim como nós.

De alguma forma, ele prendeu a respiração.Uma estranha tensão tomou-lhe conta. Começava a entender onde aquilo ia chegar.

– A debaixo, menor de todas, é o Maquiavel. Veja como ela pisca.

– Estrela inquieta – eles sorriram juntos.

Angela não disse mais nada. Apenas apontou junto com ele para a estrela da esquerda. E uma lágrima escorreu dos seus olhos. Sem entender, mas quase compreendendo, ele perguntou pela última. Mas virou-se para olhar dentro dos seus olhos. Não queria apenas ouvi-la falar, queria vê-la falando. Aproximando-se cada vez mais dela, segurando suas duas mãos disse, apenas com um olhar e sem proferir uma palavra, que queria que ela continuasse. Assentindo com a cabeça, Angela devolveu-lhe um sorriso.

– É o nosso bebê.

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