Capítulo 6: 2010

Desenho do Flowsofly

Capítulo 6: 2010

Olhos da cor do mar do caribe,
em dias de calmaria.

 

 

Logo cedo recebi um e-mail do meu marido avisando que passaria aqui no trabalho às 17h. Como ele é insuportavelmente pontual, optei por deixar todas as coisas organizadas e sair com uns cinco minutos de antecedência. Peguei a minha bolsa e fui em direção ao elevador. Alguns colegas passaram por mim cumprimentando-me, mas apenas acenei de longe. Estava com uma dor de cabeça insuportável.

Assim que a porta do elevador fechou e começou a descer, lembrei-me de não ter desligado os computadores da sala de reunião que, por um acaso, estava trancada e, por um acaso, as chaves guardadas na gaveta do criado mudo, dentro da minha sala. Que, também por um acaso, estava trancada. E as chaves? Na minha mão, claro. Revirei os olhos e apertei o andar novamente, consegui me atrasar saindo com cinco minutos de antecedência.

Quando o elevador parou, o andar inteiro já estava com as luzes desligadas. Tentei ser o mais breve possível indo à minha sala, pegando as chaves da sala de reunião, desligando os computadores e voltando para guardar as chaves e fechar a minha sala. Mas infelizmente o relógio marcava 17h12min.

Fui até a janela e lá estava ele estacionado, porém, estranhamente, havia um homem parado há alguns metros encarando-o dentro do carro. Um homem muito bonito, por sinal. Era alto, esguio e usava um paletó preto. Ele rapidamente voltou sua atenção para mim. Me afastei da janela. Minha cabeça doeu ainda mais com esse movimento brusco.

Saí da sala e desci correndo, sentindo um arrepio estranho. Revirei os olhos, que bobagem. Foi só uma má impressão. Dei uma verificada no celular, já tinha duas ligações. Era 17h30. Quando cheguei no térreo, claro que ele já estava fora do carro me esperando em pé. Fez uma cara de confusão. E ainda era tão lindo.

Querido, me perdoe. Eu esqueci os computadores ligados, tive que voltar tudo e…

Ele não me deixou completar a frase. Apenas me abraçou e me beijou. Me senti segura, por um instante quase esqueci da dor de cabeça. Nesse momento, percebi com clareza porque o escolhi para ser meu. Esse encontro poderia ter começa com uma discussão, ainda que boba, mas ali estávamos, apaixonados, como sempre.

Entramos no carro, antes de sair, virei para trás para ter certeza que o homem não estaria mais ali. E não estava. Decidi não comentar nada, já passou. Seguimos em direção ao nosso destino: o supermercado. O trânsito estava fluindo, apesar do fluxo. Ele estava com pressa, tinha compromisso às 20h – e ainda teria que me deixar em casa. Conversamos sobre questões aleatórias do nosso dia-a-dia, cheguei a repassar três (sim, três) vezes a lista de itens, porque sempre esquecemos alguma coisa. Dessa vez venceríamos.

Assim que estacionou o carro, perguntei novamente se ele queria que eu lesse a lista. Rimos. Tinha teor de piada, mas eu estava falando sério. Não li em voz alta, apenas repassei enquanto ele pegava a cesta. Quando levantei os olhos para apontar o corredor de perecíveis, me assustei. Era o mesmo homem de antes parado ali. Em pé. Encarando o Jô enquanto ele pegava a cesta com rodinhas.

Aquilo me deu um grande arrepio. Ainda maior que antes, o que fez a minha cabeça praticamente explodir. Cheguei perto até demais, quase derrubando toda a estante da entrada, quando o João me segurou pelo braço, Está tudo bem? Apenas sorri. Olhei de volta para o corredor e o homem não estava mais lá. Agora sim isso me parecia estranho.

Tive a impressão de que tem alguém nos seguindo, falei com paciência e tentando demonstrar plenitude.

Se tiver essa impressão de novo, me avise ok?

Fiz que sim com a cabeça e começamos pelo corredor de limpeza, do lado oposto do que tínhamos planejado. Estranha a sensação de estar sendo seguida. Tentei me concentrar na lista pegando tudo que precisávamos, sem me empolgar muito. O João quis que nos separássemos para ser mais breve possível em razão do horário. Não gostei da ideia, mas fui até a padaria comprar uns doces. Comprei uma quantidade de pão para a noite e a manhã seguinte, e também um pedaço de torta de chocolate. Não estava na lista, mas não podia evitar.

Vi que o João tinha acabado de sair das verduras e legumes e estava indo para o Açougue, tentei não derrubar as coisas que fui pegando pelo caminho (nenhuma delas estava na lista originária, mas todas na minha cabeça). Coloquei tudo na cestinha e, novamente, vi o homem. Estava entre mim e o João. Bem mais perto dele dessa vez. Olhou para mim. Me senti um pouco enjoada, parecia que estava passando mal.

Ei, você está pálida. Está tudo bem?

Incrivelmente o homem não estava mais ali. Simplesmente desapareceu. Decidi não disfarçar mais, estava mesmo muito nervosa. Por mim deixaria tudo ali naquele instante e iria para casa. O João me convenceu a beber um café, deduziu que podia ser porque não comi nada a tarde inteira. Expliquei para ele as características do homem. Ele afirmou não ter reparado em ninguém assim, mas concordou que era, no mínimo, estranho.

Ai o café chegou. Bebi um gole e tentei respirar. Ele segurou a minha mão e ficou falando sobre o evento que teria daqui a pouco, tentando me distrair. Por um instante até que prendeu a minha atenção, mas aí eu o vi de novo. Agora ele caminhava em nossa direção. Segurei firme na mão do João e tentei ser o mais discreta possível ao avisar que o homem estava vindo. Ele pareceu absolutamente confuso onde?, ficou me perguntando. Mas como onde? Bem ali, na nossa frente, vindo em nossa direção. O homem sentou ao meu lado, consequentemente de frente para o meu marido. Encarei o João como quem pede socorro.

O que ele está fazendo sentado aqui João? perguntei com a voz trêmula.

Mas querida, não tem ninguém aqui.

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