Capítulo 5: 1982

Desenho do Flowsofly

Capítulo 5: 1982

Sei lá, tem dias que estou nublado.

 

Dona Chica lavava sua cumbuca no rio quando os homens da cidade grande iam chegando. Era simples, respeitada, de boa fé. Casou-se moça. Teve sete filhos. Quatro homens e três mulheres. O mais velho virou doutor, como ela mesma se orgulhava dizendo. Era o primeiro da região, tinha gente que pedia até para ver o diploma. O segundo mais velho morreu, era jovem quando começou a usar drogas, acabou levando um tiro da polícia. Tadinha, sofreu que só. O terceiro decidiu casar com vinte anos, só queria saber de namorar mulher bonita. Essa parte aí puxou do seu pai. O quarto começou a trabalhar cedo, queria juntar dinheiro para viajar. Dona Chica lhe dizia “Viajar pra onde meu filho? Aqui que é terra boa”, mas ele não concordava muito com isso. Suas duas filhas gêmeas eram de boa fé, igual a mãe. Não pensavam em trabalhar, nem em namorar, nem em casar. Ficavam sentadas lendo folhetim e esperando um milagre. Rezavam para Nossa Senhora da Conceição ajudar. A caçula era a mais curiosa, ajudava nos afazeres da casa, ia para escola e vivia com um livro debaixo do braço. Essa era sonhadora, dizia que até que ia ser professora. Todo mundo via graça.

O coronel desceu do carro junto com dois homens de terno, ver aquela cena espantou Dona Chica.

-A eleição não foi esses dias, seu Zé?

Um dos rapazes lhe entregou um santinho. Era a época de eleição. De repente todo mundo lembrava dos pobres. Os homens da cidade apareciam, as ruas eram pintadas e a polícia fingia até que trabalhava, mas todo mundo sabia que eles ficavam era dormindo. Vinha até pessoal da imprensa falar da cultura do nosso povo. Mas Dona Chica se enganava não, era moça esperta, sabida. Alguma coisa eles iam oferecer. No santinho tinha escrito “JORGINHO DO AÇOUGUE”.

-Desse aqui eu nunca ouvi falar não.

-Ô Dona Chica, o lance é o seguinte, esse ano temo que eleger esse rapaz.

– E o que é que eu tenho a ver com isso?

-Todo mundo sabe que você tem fama lá com o pessoal, podia dá uma ajudinha, né. A gente pode negociar aí de reformar sua casa.. Toda não porque tamo em crise.

-Você não desiste não?

-Vamo colaborar Dona Chica. A maioria dos comerciantes já aceitaram ajudar a gente, só falta a sinhora. O Jorginho prometeu até lhe pagar dessa vez.

Dona Chica pegou sua cumbuca, seus panos e foi-se arrumando para voltar pra casa. Assobiando uma música e fingindo que os homens não estavam ali. Eles não gostavam muito quando ela fazia isso não, na última vez eles até empurraram ela no chão. Mas não guardava mágoa. Lembrou que tinha cocada no bolso do vestido e ofereceu aos engravatados.

Querem um bucadinho?

Seu zé ficou ali parado, fitando aquela senhora. Apesar da coragem, estava cansada. Eles acreditavam que dessa vez ela cederia, não por escolha, teimosa do jeito que era, mas porque teria festa, comida de graça. Alimentar os filhos dela. Eram tempos difíceis de pobreza.

Dona Chica esse ano vai ter vaquejada paga pelo Jorginho.

-Não gosto do que fazem com os boi. Quero é saber quando que vai ter livro na escola.

Os rapazes que o acompanhavam riram daquela cena. Era mesmo difícil convencer Dona Chica, depois que ficou viúva, nunca mais foi a mesma. Seu Zé achava que o que lhe faltava era um homem de verdade, Dona Chica já achava que lhe faltava era dinheiro de verdade. Não queria fazer mal nenhum a ela, a conhecia desde de moça. Era até amigo do falecido. Ele sabia que a melhor solução era Dona Chica votar no Jorginho. Tempos difíceis.

Tenho nada a ver com isso não… Faz como a sinhora quiser.

Nesse momento Dona Chica já estava dois metros de distância.

Mas fique bem informada: Os homi vão fiscalizar o voto.

Dona Chica parou e fechou os olhos. Uma lágrima escorreu. Lembrou-se de sua mãe, sempre chamada de rebelde porque nunca vendeu o voto. Morreu com um tiro do Coronel. Acreditava que as coisas poderiam mudar e ensinou assim a sua filha. Agora, ouvindo que a única liberdade que tinha lhe seria tirada, sentiu tristeza. Nem lembrava mais porque tinha que votar. Já faltava comida, faltava água, mal tinha escola. Qual era mesmo a importância disso?

Eles vão tá armado, seu Zé?

– Vão sim.

– Eu tenho meus filho pra criar e você sabe disso.

– Só sei que precisamo eleger o Jorginho, Dona Chica.

Dona Chica pensou que talvez não valesse mais a pena contrariar. Colocou as mãos na cintura e olhou para cima. O sol estava forte, não chovia há dois meses. O Rio estava cada vez mais vazio, faltava peixe, o gado ficava cada vez mais magro e ninguém do comércio conseguia vender. Era um sinal de que pioraria. Desgraça em cima de desgraça. Mas essa não era a primeira vez e nem seria a última. Sua mãe lhe ensinou certo, um povo forte para uma vida difícil. Dona Chica começou a rir. Todos ficaram confusos.

Foi mal, seu Zé. Mas eu tenho nada a ver com isso não.

Pegou suas coisas e seguiu assobiando.

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3 comentários em “Capítulo 5: 1982

  1. Fantástico! Adorei a forma escrita e a simplicidade que o texto transmite. Muita mensagem em simples palavras! Parabéns Isa!

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  2. Texto que me trouxe para uma realidade não muito distante rs , só mudou de cenário, o mundo precisa de mais e mais Donas Chicas , a mulher forte , resistente.
    Continue , continue sempre !!!
    Abraço.

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