Capítulo 4: 2007

Desenho do Flowsofly

 

Capítulo 4: 2007

Meu coração sangra (…)

Hora vigésima sexta.

Abri os olhos, estava tudo embaçado. Pisquei algumas vezes. Havia uma uma mulher vestida de branco parada na minha frente com uma pasta na mão, escrevia alguma coisa. Olhei em volta. Era o quarto de um hospital. Eu estava deitado na cama. A minha direita o barulho dos aparelhos me incomodavam, a dor de cabeça era intensa. A minha esquerda tinha um criado mudo com um jarro de flores com cores berrantes, logo atrás uma cortina cobria a vista da janela. Atrás da mulher de branco uma televisão noticiava um acidente aéreo.  Acidente aéreo… Ouvi os aparelhos aumentarem o volume, finalmente despertando uma curiosidade na mulher que, agora, me fitava. Desmaiei.

*
– Letícia venha para cá. Assim você vai se machucar.

Minha esposa e filha brincavam no jardim dos fundos. Nenhuma cena no mundo me trazia mais paz do que aquela. Tudo estava caminhando bem. Acabei de ser promovido, a Sara terminou o mestrado, a Letícia deu os primeiros passos. Até pensei em adotar um gato, mas fui convencido que os futuros gastos com histamínicos não compensariam. O pôr do sol se encaixava tão perfeitamente no fundo que parecia um quadro.

Estava tão distraído com aquela cena que o vibrar do celular me assustou, verifiquei a mensagem, “viagem confirmada”. Era um excelente começo de fim de semana. Me juntei a brincadeira com as meninas. Elas ficariam  felizes em saber disso.

*

Hora quadragésima oitava.

Acordei sentindo uma queimação no braço esquerdo. Tinha uma luz forte ligada no meu rosto, não conseguia enxergar direito. Desliguem a luz, ouvi vozes. A luz se apagou e aos poucos pude enxergar, mas o meu braço não parava de queimar. Virei o rosto com dificuldade para saber o que estava acontecendo e vi um médico – deduzi pelo “Dr. bordado no jaleco –  aplicando algo na veia. Minha cabeça não parava de doer. O que aconteceu?, o som da minha voz saiu com rouquidão, meus ouvidos pareciam entupidos. Percebi uma moça chegando mais perto, o senhor passou por uma cirurgia, mas já está tudo bem. Tente respirar fundo. A enfermeira ficou gesticulando com as mãos para me mostrar como inspirar  e expirar o ar, mas o meu peito doía. Tentei fazer o que ela mandava, mas a curiosidade tomou conta de mim. Porque fiz uma cirurgia? aquilo estava muito confuso. O médico apertou um botão na cama para que eu ficasse mais próximo a ele. Não se lembra de nada?, o tom de sua voz preocupou-me. Balancei a cabeça em negativa. Não, eu não me lembrava de nada. Você estava a caminho do aeroporto quando sofreu um acidente de carro.. A voz foi ficando distante, vazia de significado. Eu já não estava mais ali. Senti os meus membros se debatendo na cama, mas não era eu. Não tinha nenhum autocontrole. As lembranças foram me tomando e o cérebro já não sabia mais como respirar. O médico gesticulava algo para que eu me acalmasse, outros chegaram e me amarraram na cama; não lutei. Apenas deixei que o medicamento entrasse e fizesse o trabalho por mim.

*

– Tiago você pegou a lancheirinha, né?

Provavelmente aquela seria a milésima vez que a Sara me fazia essa pergunta. Em todas, com um sorriso no rosto, fiz questão de responder “sim, meu amor”. Ela estava ansiosa por ser a primeira vez que nós três viajaríamos de avião. Ela carregou os celulares umas centenas de vezes, ainda que já estivessem com a bateria cheia. A garantia de não perder um segundo dos momentos da Letícia a cobriu de uma ansiedade, no mínimo, engraçada. Talvez estivesse escondendo um medo de viajar que nem eu tinha tanto conhecimento assim.

Deixei as malas no chão, vi que ela conferiu mais uma vez se o cinto da cadeirinha no banco traseiro estava travado. Tranquei a porta de casa, coloquei as bolsas na mala do carro e a encarei. Ela estava distraída enquanto fazia o movimento com as mãos revelando nervosismo. Abracei-a. Ela respirou fundo e aos poucos a respiração foi desacelerando.

– Estou nervosa.

– Não tem motivos.

– Acho melhor não irmos, Tiago. Estou com uma sensação estranha.

Soltei um riso.

– Calma. A Letícia ficará bem, olha só para ela, até adorou o brinquedo novo.

A Letícia estava sentada na cadeirinha com a metade da cabeça do panda na boca. Balançava as perninhas com o som da música que tocava na rádio. Rimos juntos. Ela assentiu com a cabeça me dizendo que ficaria bem. Entramos no carro e seguimos conversando por um tempo. O sinal estava vermelho quando a Sara tirou o cinto e virou para trás, tentou pegar o panda que havia caído. A Letícia reclamava que não conseguia se mexer. Olhei para as duas pelo espelho retrovisor, era uma cena engraçada.

Infelizmente durou pouco. Não vi e nem ouvi. Muito menos percebi quando e nem como surgiu aquele ônibus. Foi tão rápido. Já estava em cima. Não havia o que fizesse. Só escutei o barulho.

E apaguei.

*

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