Capítulo 3: 1968

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Desenho do Flowsofly

Capítulo 3: 1968

Traz luz para minh’alma.

Que o frio lá fora seja inversamente proporcional ao calor do que eu sinto por você

 

 

  • Maria, o que você vai fazer com esse bilhetinho?

Maria estava nos seus preciosos 15 min de intervalo da escola quando o Joãozinho lhe entregou aquele papel e saiu correndo. Ela estava no quinto ano, ele estava no sexto. Brincando de apaixonado, resolveu fazer-lhe uma declaração de amor. Já havia lhe comprado bombons, flores e dados as figurinhas do seu caderno – caderno esse que ela considerava de ‘menino’ e as figurinhas que de nada lhe serviu. Agora, se já não bastasse, resolveu entregar um bilhetinho de amor.

  • Eu não acho que o João escreveu isso.
  • Eu nem sei falar essa palavra aí – zombou sua melhor amiga.
  • O que é inversamente pro….po-r….ci-o..nal?
  • Pergunta para ele.

Maria fitou aquele bilhetinho desacreditada que um menino de doze anos pudesse saber o que significava aquelas palavras. Ela mesmo não havia entendido, então, ele também não sabia. Num súbito pulo, sua mente muito esperta, entendeu tudo, e, de euforia, gritou, quase derrubando o sanduíche de sua amiga.

  • Foi aquele irmão dele que faz faculdade que escreveu!

Sua amiguinha contente com a descoberta, assentiu com a cabeça e soltou um risinho. Mas franziu o cenho e fez cara de espanto.

  • Ele estuda para ser advogado né?
  • É… –  Maria respondeu sem muito entender.
  • Papai disse que não devemos falar palavras difíceis.
  • Por quê?
  • Não sei, você devia entregar para a professora.

Abrindo novamente o bilhetinho, Maria resolveu pensar melhor. O que significa o ‘frio lá fora’? Eles estavam no verão, naquela cidade quase nunca fazia frio. O calor era tão forte que todas as salas tinham ventiladores. Ninguém suportava o verão ali. Bateu o pezinho direito no chão e colocou a mão na cintura.

  • Acho que é aquele negócio de analogia que a professora falou – sua amiga arregalou os olhos e respondeu.
  • Não é possível.
  • É.
  • Não é.
  • Vou chamar o João.

As duas, sem hesitar, pegaram suas bolsinhas e foram ao encontro do João. Este, sentado na escada com os seus amigos, avermelhou-se todo com a chegada da Maria.

  • João, quem fez o bilhetinho?
  • Foi eu.
  • Não foi.
  • Foi sim.

Um de seus amigos, revirou os olhos e com as mãos para cima declarou, ele roubou do irmão. Com os olhos semicerrados a Maria olhou para o Joãozinho e balançou a cabeça em negação. Seus cachos tocavam as bochechas naquele movimento. Ela estava certa desde o início, bastava agora entender o que estava escrito. Ele abaixou a cabeça.

  • Que frio lá fora que é esse João?
  • Fala baixo, Maria.
  • Por quê?
  • Meu irmão disse que se alguém visse eu podia ser expulso – dando de ombros o Joãozinho calou-se, mas a amiga da Maria, boba nem nada, reafirmou:
  • Eu disse que o papai fala para gente não falar palavras difíceis.

A Maria começou a se estressar consideravelmente com aquela situação. O Joãozinho entregara-lhe um bilhete de amor, que não foi escrito por ele, roubado do seu irmão, com uma mensagem que ninguém entendia, mas ela não podia perguntar se não ele era expulso. Que confusão nos quinze minutos da Maria! Indignada começou a andar de lá para cá, sem rumo nenhum, pensando.

  • Então me explica, que frio que é esse?
  • Promete que não conta para ninguém?
  • Prometo.

Todos eles, muito envolvidos na revelação do Joãozinho, se encolheram para ouvir melhor os sussurros daquele menino. Prestes a revelar o que estava acontecendo, a monitora do intervalo, que coincidentemente era a professora de história naquele dia, chegou e puxou o bilhetinho. Todos com os olhos arregalados esperaram que a mulher lesse a tão incógnita mensagem. Ela apenas séria fitou as crianças.

O coração de Joãozinho nesse minuto explodia dentro do peito, ele passava a mão na calça repetidas vezes. Pensou em correr, coitado. Para onde iria? A Maria se sentiu culpada, será mesmo que o Joãozinho ia ser expulso? Não que ela gostasse dele, mas que dózinha, era bom estudante. Sua amiga começou a comer o sanduíche porque estava nervosa, a voz de seu pai repetia em sua cabeça.  A monitora colocou o bilhete no bolso da calça e questionou.

  • Quem fez isso?
  • O irmão do Joãozinho – respondeu, rápido demais, um de seu amigos. Todos balançaram a cabeça.
  • É verdade – soltou a amiga da Maria, com a boca cheia de sanduíche.

A monitora respirou fundo. E agachando-se para ficar perto das crianças, falou em voz mansa.

  • Nunca falem disso para ninguém. Podem ir para a sala.

Sem questionar, foram todos bem rapidinhos para suas respectivas aulas. Maria na aula de matemática, sala 05. Joãozinho na aula de geografia, sala 06. Uma do lado da outra. Mas antes de entrar, Joãozinho disse.

  • Você gosta de mim Maria?

Revirando os olhos, zombou.

  • Tomara que seja expulso.
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