Capítulo 2: 2050

Desenho do Flowsofly

Capítulo 2: 2050

Às vezes a vida te presenteia com uma alma companheira e então, vocês vivem a maior parte da vida juntas sob felicidades e tempestades.

E mesmo que a vida – por mais contraditória que pareça – separe os dois corpos, as almas nunca estarão desligadas.

Anna dormia em seu quarto quando um barulho de vozes vindo do primeiro andar a acordou. Todas as noites antes de dormir sua mãe trancava a porta do quarto para evitar que a  pequenina perambulasse pela casa, mas dessa vez seu pai quem a colocou na cama e, infelizmente, ele não teve o mesmo cuidado.

Quando seus pés tocaram o chão e sentiu como estava frio, encolheu-se de volta na cama. Apesar de parecer uma má ideia, as vozes não cessavam e deixavam-na cada vez mais curiosa. Anna levantou-se e foi em direção ao barulho. Decidiu encarar aquela aventura noturna. A mamãe ficaria orgulhosa, pensou.

Quando Anna chegou no corredor e parou em frente a escada, percebeu o quanto estava escuro lá embaixo, sua barriga começou a formigar. Soltou um risinho. Era um grande momento de descobertas. Entre a curiosidade e o medo surgiu a empolgação. A mamãe sempre diz para descer segurando o corrimão.

Um pé de cada vez. Contou um, dois, três, quatro… As vozes ficaram ainda mais altas e contar os degraus já não tinha mais tanta importância assim. Viu uma brechinha de luz saindo da sala de leitura e à medida que se aproximou, ficou mais quente. Notou que a lareira estava ligada e correu em direção ao calor. Anna adorava aquela sala, os dois sofás que pareciam tão grandes conseguiam acomodar todos os seus brinquedos e ainda sobrava-lhe espaço. Era incrível.

As estantes eram tão cheias de livros que quando sua mãe dizia que há um universo dentro de cada um deles, a deixava ainda mais encantada. Aquela sala tornava as terças-feiras o seu dia favorito, afinal, era o dia de toda a família reunir-se para a hora da leitura.

Parou atrás do sofá quando viu seu pai falando alto, nunca tinha visto isso antes, aquilo a assustou.

Temos que tirá-la daqui. Não dá mais.

Sobre o que ele estava falando? Chegou mais perto.

Desde o início eu não concordei com essa ideia. Você sabe…

Sua mãe apareceu chorando, enrolada num cobertor. Seu cabelo estava desgrenhado e sua fisionomia era cansada. Quantas noites não dormia? Balançou a cabeça negativamente para a xícara de café que seu pai tentava lhe entregar.

Você sabe que eu a amo. Não posso simplesmente abandoná-la. É cruel. E ela só tem a mim – longa pausa – a nós dois.

Essa frase ficou pairando no ar. Ninguém disse mais nada. A pequena Anna não sabia de quem eles estavam falando. Queria saber mais. A sua mãe nunca gesticulou daquele jeito. Porque eles iam querer abandonar alguém? De quem poderiam estar falando? Sua empolgação esvaziou-se e deu lugar à raiva, ao medo e ao receio de ser descoberta. Ficou ali, abaixada, esperando que eles falassem mais.

Seu pai, andando de um lado para o outro colocou a mão na testa. Respirou fundo e agora falou mais baixo.

Emily, por favor. É o melhor para ela conviver com outras pessoas de sua idade. Lá terá atenção total, alimentação adequada, lazer. Aqui não podemos dar nada disso. Trabalhamos, temos nossos compromissos…

Anna abraçou sua perna bem forte e começou a chorar. Por que eles queriam mandá-la embora? Ela tinha se comportado bem. Tinha sido uma boa filha. Na escola era como se fosse a melhor aluna de todas. Tinha dificuldades com matemática, mas era só matemática. A mamãe dava-lhe um beijo todas as noites antes de dormir. Ela disse que me amava. Ela disse. E Anna não conseguia entender. Tomava café da manhã, almoçava e jantava todos os dias. E às vezes a comida nem era tão boa assim, odiava legumes. O que o papai estava pensando sobre alimentação adequada?

Emily desde o início contou que era adotada. Anna sabia que seus pais biológicos eram outros, mas ela não queria ir a lugar algum. Queria ficar ali, com eles. Sempre quis.

Tudo bem, eu não aguento mais. Faça o que tiver de ser feito.

Essas foram as últimas palavras de sua mãe. Anna levantou-se e saiu correndo de volta ao seu quarto. Nem prestou atenção se seus pais a viram ou não. Nem sabia mais se poderia chamá-los assim. Queria enrolar-se debaixo do cobertor e chorar. Sentia-se abandonada.

Mas, ao virar para a escada, assustou-se por perceber que sua avó também estava ali, olhando pela brechinha da porta ouvindo aquele diálogo. Correu para os braços dela e chorou.

Anna, não chore. Não é sobre você, minha querida.

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