Capítulo 1: 1897

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Capítulo 1: 1897

Quando fecho os olhos posso imaginar cada uma das constelações que cobrem o teu corpo.

Ele.

Havia um silêncio desconcertante na vila. O sol estava forte e o sino soava pela terceira vez. Olhei o relógio, marcava 12h02. Dois minutos atrasada. Ouvi um barulho, descarga de ansiedade percorreu o meu corpo, mas eram apenas duas crianças carregando uma cesta de frutas. Ótimo. Quando voltei o olhar para a velha casa de madeira, lá estava ela. Linda. O vestido era preto, sua mangas longas tinham um caimento perfeito e a gola alta revelava insegurança. Um lenço cobria seus cabelos castanhos e deixava sua expressão ainda mais carregada de preocupação. Aquilo me enfureceu, porque eu não pude, eu prometi e não pude mantê-la segura. Olhei em volta para garantir que ninguém a veria ali, quando ela estendeu a mão para mim. Estava gelada. Ela se aproximou e sussurrou ao meu ouvido, respire. Sabia que eu não estava bem e queria acabar com isso. Retribui com um sorriso.

Ela.

Não sei ao certo que horas acordei, porque não me lembrava de ter dormido. Passei a noite sozinha, não pude fechar os olhos. Agora, quase no horário combinado, sentada de frente para o espelho, pude ver como as olheiras me denunciariam. Fechei os olhos e respirei fundo. Calculamos esse dia, por uma semana pensamos em cada detalhe que nos poderia acontecer e, mesmo assim, segundos antes, eu não conseguia me concentrar. Levantei, peguei a minha mala e desci as escadas. Foi quando pude vê-lo e naquele instante tudo fez sentido. Ele estava de cinza, eu o amava de cinza, o relógio na mão demonstrava estresse. Ele não podia se culpar por tudo que estava acontecendo, precisava acabar  com isso. Estendi a mão para tocá-lo. Estava quente. Falei para ele baixinho, respire. Seu sorriso me encheu de esperança. Como ele conseguia? Deu-me apoio para entrar no carro, enquanto guardava a mala verificou se não tinha ninguém nos observando. Quando sentou ao meu lado, senti que teríamos muito o que conversar.

Como foi a noite? – Sua voz era trêmula.

Tranquila – Confesso que não sei mentir.

Você tem certeza que é isso o que você quer? – Agora ele me fitava com seus lindos olhos castanhos, mantive a postura.

Nunca duvidei.

Ele.

Seus olhos estavam cansados. É claro que era uma péssima mentirosa, mas não insisti. Queria uma resposta e, como sempre, me surpreendeu. Diante daquela situação, mesmo sabendo que seu marido está a poucos minutos de nós, junto com todo o clérigo e a cidade, eu não podia evitar. Não queria evitar. Toquei seu rosto, percebi sua respiração acelerada. Deixe-me beijá-la, havia um tom de desespero que me envergonhava. Ela não respondeu, mas também não desviou o olhar. Apenas parou e me observou. Senti que era um não e me afastei. Quando a conheci seis meses atrás, sabia que era um mulher incrível, mas também sabia que carregava um peso. Sua energia me fissurou. Nos envolvemos de tal forma que o mundo parecia não fazer sentido se eu não pudesse vê-la. Confessou-me que queria o divórcio. Era esposa do Prefeito, amigo do Padre. Tinha poucos amigos, mudava-se pela terceira vez. Prazerosamente mostrei-lhe a cidade quando percebi-me apaixonado. Foram tantos dias que tínhamos construído o nosso lugar preferido, longe do centro e próximo a antigos trilhos por onde passava o trem. Abri o meu coração para ela e nunca me arrependi, apesar de sempre esquecer que era casada – simplesmente porque não queria me lembrar, porque não fazia diferença para mim, e esse era o meu fardo.

Ela.

Ele pediu para me beijar. Não conseguia respirar direito, em seis meses essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Não podia suportar o seu olhar de desapontamento, mas não tinha coragem. Quando ele começou a dirigir, senti que fitava o horizonte perdido em seus pensamentos. Era ele, eu sabia que era. Minha mãe sempre me disse que quando chegasse a hora eu simplesmente sentiria. Infelizmente o mundo real não depende do que queremos, não somos livres, de nenhuma forma. Agora eu segurava as minhas correntes. O silêncio perdurou e se concretizou o que imaginei, aquela seria uma longa e exaustiva viagem. Decidi não dizer nada, lidamos bem com o silêncio. Sua presença me acolhe e isso basta. Espero que a ele também. Quando cogitei a possibilidade de tranquilizar-me e observar a paisagem, escutei um barulho. Olhei para trás. E lá estava a minha corrente, acompanhado de uma multidão enfurecida. É ele.

Mal terminei de falar e ouvi os tiros. O barulho do vidro estourando me assustou. O carro acelerava, mas pareciam cada vez mais perto. Ouvia os gritos: vagabunda!. A felicidade parecia tão distante agora. Olhei para o lado, sabia que aquilo não terminaria bem. Não tinha como terminar bem. Encarei-o. Pouco tempo depois que nos conhecemos ele admitiu que me amava. Mesmo sabendo que era impossível, mesmo respeitando meus nãos e minhas limitações, ele sempre estava lá. Nasci para cuidar de você – foi o que ele me disse antes de toda suposição que eu traía o meu marido e que, como uma mulher cínica que era, pedi o satânico divórcio para me esconder. O Padre passou um mês em minha casa para me ensinar bons modos e valores da família.

Devia ensinar ao meu marido – eu pensava.

Mas agora que tudo parecia perdido, eu é que deveria cuidar dele.

Eu amo você – aquilo saiu quase como um grito.

O que? – não foi uma dúvida, mas sim, incredulidade.

Amo você, Rob. Amei desde o primeiro instante que te vi.

Quando terminei de dizer aquelas palavras, me senti livre. Arranquei as minhas correntes. Agora precisava terminar com aquilo. Virei-me para a porta, abri-a e fechei os olhos. Respirei fundo e me joguei.

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3 comentários em “Capítulo 1: 1897

  1. Pediu o impossivel: pediu para não procurar relações, como não se envolver e procurar alguma coisa nos eu texto que não nos remeta a nossa realidade… É minha amiga baiana, tempero não faltou neste conto. Parabéns !

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