Capítulo 6: 2010

Desenho do Flowsofly

Capítulo 6: 2010

Olhos da cor do mar do caribe,
em dias de calmaria.

 

 

Logo cedo recebi um e-mail do meu marido avisando que passaria aqui no trabalho às 17h. Como ele é insuportavelmente pontual, optei por deixar todas as coisas organizadas e sair com uns cinco minutos de antecedência. Peguei a minha bolsa e fui em direção ao elevador. Alguns colegas passaram por mim cumprimentando-me, mas apenas acenei de longe. Estava com uma dor de cabeça insuportável.

Assim que a porta do elevador fechou e começou a descer, lembrei-me de não ter desligado os computadores da sala de reunião que, por um acaso, estava trancada e, por um acaso, as chaves guardadas na gaveta do criado mudo, dentro da minha sala. Que, também por um acaso, estava trancada. E as chaves? Na minha mão, claro. Revirei os olhos e apertei o andar novamente, consegui me atrasar saindo com cinco minutos de antecedência.

Quando o elevador parou, o andar inteiro já estava com as luzes desligadas. Tentei ser o mais breve possível indo à minha sala, pegando as chaves da sala de reunião, desligando os computadores e voltando para guardar as chaves e fechar a minha sala. Mas infelizmente o relógio marcava 17h12min.

Fui até a janela e lá estava ele estacionado, porém, estranhamente, havia um homem parado há alguns metros encarando-o dentro do carro. Um homem muito bonito, por sinal. Era alto, esguio e usava um paletó preto. Ele rapidamente voltou sua atenção para mim. Me afastei da janela. Minha cabeça doeu ainda mais com esse movimento brusco.

Saí da sala e desci correndo, sentindo um arrepio estranho. Revirei os olhos, que bobagem. Foi só uma má impressão. Dei uma verificada no celular, já tinha duas ligações. Era 17h30. Quando cheguei no térreo, claro que ele já estava fora do carro me esperando em pé. Fez uma cara de confusão. E ainda era tão lindo.

Querido, me perdoe. Eu esqueci os computadores ligados, tive que voltar tudo e…

Ele não me deixou completar a frase. Apenas me abraçou e me beijou. Me senti segura, por um instante quase esqueci da dor de cabeça. Nesse momento, percebi com clareza porque o escolhi para ser meu. Esse encontro poderia ter começa com uma discussão, ainda que boba, mas ali estávamos, apaixonados, como sempre.

Entramos no carro, antes de sair, virei para trás para ter certeza que o homem não estaria mais ali. E não estava. Decidi não comentar nada, já passou. Seguimos em direção ao nosso destino: o supermercado. O trânsito estava fluindo, apesar do fluxo. Ele estava com pressa, tinha compromisso às 20h – e ainda teria que me deixar em casa. Conversamos sobre questões aleatórias do nosso dia-a-dia, cheguei a repassar três (sim, três) vezes a lista de itens, porque sempre esquecemos alguma coisa. Dessa vez venceríamos.

Assim que estacionou o carro, perguntei novamente se ele queria que eu lesse a lista. Rimos. Tinha teor de piada, mas eu estava falando sério. Não li em voz alta, apenas repassei enquanto ele pegava a cesta. Quando levantei os olhos para apontar o corredor de perecíveis, me assustei. Era o mesmo homem de antes parado ali. Em pé. Encarando o Jô enquanto ele pegava a cesta com rodinhas.

Aquilo me deu um grande arrepio. Ainda maior que antes, o que fez a minha cabeça praticamente explodir. Cheguei perto até demais, quase derrubando toda a estante da entrada, quando o João me segurou pelo braço, Está tudo bem? Apenas sorri. Olhei de volta para o corredor e o homem não estava mais lá. Agora sim isso me parecia estranho.

Tive a impressão de que tem alguém nos seguindo, falei com paciência e tentando demonstrar plenitude.

Se tiver essa impressão de novo, me avise ok?

Fiz que sim com a cabeça e começamos pelo corredor de limpeza, do lado oposto do que tínhamos planejado. Estranha a sensação de estar sendo seguida. Tentei me concentrar na lista pegando tudo que precisávamos, sem me empolgar muito. O João quis que nos separássemos para ser mais breve possível em razão do horário. Não gostei da ideia, mas fui até a padaria comprar uns doces. Comprei uma quantidade de pão para a noite e a manhã seguinte, e também um pedaço de torta de chocolate. Não estava na lista, mas não podia evitar.

Vi que o João tinha acabado de sair das verduras e legumes e estava indo para o Açougue, tentei não derrubar as coisas que fui pegando pelo caminho (nenhuma delas estava na lista originária, mas todas na minha cabeça). Coloquei tudo na cestinha e, novamente, vi o homem. Estava entre mim e o João. Bem mais perto dele dessa vez. Olhou para mim. Me senti um pouco enjoada, parecia que estava passando mal.

Ei, você está pálida. Está tudo bem?

Incrivelmente o homem não estava mais ali. Simplesmente desapareceu. Decidi não disfarçar mais, estava mesmo muito nervosa. Por mim deixaria tudo ali naquele instante e iria para casa. O João me convenceu a beber um café, deduziu que podia ser porque não comi nada a tarde inteira. Expliquei para ele as características do homem. Ele afirmou não ter reparado em ninguém assim, mas concordou que era, no mínimo, estranho.

Ai o café chegou. Bebi um gole e tentei respirar. Ele segurou a minha mão e ficou falando sobre o evento que teria daqui a pouco, tentando me distrair. Por um instante até que prendeu a minha atenção, mas aí eu o vi de novo. Agora ele caminhava em nossa direção. Segurei firme na mão do João e tentei ser o mais discreta possível ao avisar que o homem estava vindo. Ele pareceu absolutamente confuso onde?, ficou me perguntando. Mas como onde? Bem ali, na nossa frente, vindo em nossa direção. O homem sentou ao meu lado, consequentemente de frente para o meu marido. Encarei o João como quem pede socorro.

O que ele está fazendo sentado aqui João? perguntei com a voz trêmula.

Mas querida, não tem ninguém aqui.

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Capítulo 5: 1982

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Capítulo 5: 1982

Sei lá, tem dias que estou nublado.

 

Dona Chica lavava sua cumbuca no rio quando os homens da cidade grande iam chegando. Era simples, respeitada, de boa fé. Casou-se moça. Teve sete filhos. Quatro homens e três mulheres. O mais velho virou doutor, como ela mesma se orgulhava dizendo. Era o primeiro da região, tinha gente que pedia até para ver o diploma. O segundo mais velho morreu, era jovem quando começou a usar drogas, acabou levando um tiro da polícia. Tadinha, sofreu que só. O terceiro decidiu casar com vinte anos, só queria saber de namorar mulher bonita. Essa parte aí puxou do seu pai. O quarto começou a trabalhar cedo, queria juntar dinheiro para viajar. Dona Chica lhe dizia “Viajar pra onde meu filho? Aqui que é terra boa”, mas ele não concordava muito com isso. Suas duas filhas gêmeas eram de boa fé, igual a mãe. Não pensavam em trabalhar, nem em namorar, nem em casar. Ficavam sentadas lendo folhetim e esperando um milagre. Rezavam para Nossa Senhora da Conceição ajudar. A caçula era a mais curiosa, ajudava nos afazeres da casa, ia para escola e vivia com um livro debaixo do braço. Essa era sonhadora, dizia que até que ia ser professora. Todo mundo via graça.

O coronel desceu do carro junto com dois homens de terno, ver aquela cena espantou Dona Chica.

-A eleição não foi esses dias, seu Zé?

Um dos rapazes lhe entregou um santinho. Era a época de eleição. De repente todo mundo lembrava dos pobres. Os homens da cidade apareciam, as ruas eram pintadas e a polícia fingia até que trabalhava, mas todo mundo sabia que eles ficavam era dormindo. Vinha até pessoal da imprensa falar da cultura do nosso povo. Mas Dona Chica se enganava não, era moça esperta, sabida. Alguma coisa eles iam oferecer. No santinho tinha escrito “JORGINHO DO AÇOUGUE”.

-Desse aqui eu nunca ouvi falar não.

-Ô Dona Chica, o lance é o seguinte, esse ano temo que eleger esse rapaz.

– E o que é que eu tenho a ver com isso?

-Todo mundo sabe que você tem fama lá com o pessoal, podia dá uma ajudinha, né. A gente pode negociar aí de reformar sua casa.. Toda não porque tamo em crise.

-Você não desiste não?

-Vamo colaborar Dona Chica. A maioria dos comerciantes já aceitaram ajudar a gente, só falta a sinhora. O Jorginho prometeu até lhe pagar dessa vez.

Dona Chica pegou sua cumbuca, seus panos e foi-se arrumando para voltar pra casa. Assobiando uma música e fingindo que os homens não estavam ali. Eles não gostavam muito quando ela fazia isso não, na última vez eles até empurraram ela no chão. Mas não guardava mágoa. Lembrou que tinha cocada no bolso do vestido e ofereceu aos engravatados.

Querem um bucadinho?

Seu zé ficou ali parado, fitando aquela senhora. Apesar da coragem, estava cansada. Eles acreditavam que dessa vez ela cederia, não por escolha, teimosa do jeito que era, mas porque teria festa, comida de graça. Alimentar os filhos dela. Eram tempos difíceis de pobreza.

Dona Chica esse ano vai ter vaquejada paga pelo Jorginho.

-Não gosto do que fazem com os boi. Quero é saber quando que vai ter livro na escola.

Os rapazes que o acompanhavam riram daquela cena. Era mesmo difícil convencer Dona Chica, depois que ficou viúva, nunca mais foi a mesma. Seu Zé achava que o que lhe faltava era um homem de verdade, Dona Chica já achava que lhe faltava era dinheiro de verdade. Não queria fazer mal nenhum a ela, a conhecia desde de moça. Era até amigo do falecido. Ele sabia que a melhor solução era Dona Chica votar no Jorginho. Tempos difíceis.

Tenho nada a ver com isso não… Faz como a sinhora quiser.

Nesse momento Dona Chica já estava dois metros de distância.

Mas fique bem informada: Os homi vão fiscalizar o voto.

Dona Chica parou e fechou os olhos. Uma lágrima escorreu. Lembrou-se de sua mãe, sempre chamada de rebelde porque nunca vendeu o voto. Morreu com um tiro do Coronel. Acreditava que as coisas poderiam mudar e ensinou assim a sua filha. Agora, ouvindo que a única liberdade que tinha lhe seria tirada, sentiu tristeza. Nem lembrava mais porque tinha que votar. Já faltava comida, faltava água, mal tinha escola. Qual era mesmo a importância disso?

Eles vão tá armado, seu Zé?

– Vão sim.

– Eu tenho meus filho pra criar e você sabe disso.

– Só sei que precisamo eleger o Jorginho, Dona Chica.

Dona Chica pensou que talvez não valesse mais a pena contrariar. Colocou as mãos na cintura e olhou para cima. O sol estava forte, não chovia há dois meses. O Rio estava cada vez mais vazio, faltava peixe, o gado ficava cada vez mais magro e ninguém do comércio conseguia vender. Era um sinal de que pioraria. Desgraça em cima de desgraça. Mas essa não era a primeira vez e nem seria a última. Sua mãe lhe ensinou certo, um povo forte para uma vida difícil. Dona Chica começou a rir. Todos ficaram confusos.

Foi mal, seu Zé. Mas eu tenho nada a ver com isso não.

Pegou suas coisas e seguiu assobiando.

Capítulo 4: 2007

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Capítulo 4: 2007

Meu coração sangra (…)

Hora vigésima sexta.

Abri os olhos, estava tudo embaçado. Pisquei algumas vezes. Havia uma uma mulher vestida de branco parada na minha frente com uma pasta na mão, escrevia alguma coisa. Olhei em volta. Era o quarto de um hospital. Eu estava deitado na cama. A minha direita o barulho dos aparelhos me incomodavam, a dor de cabeça era intensa. A minha esquerda tinha um criado mudo com um jarro de flores com cores berrantes, logo atrás uma cortina cobria a vista da janela. Atrás da mulher de branco uma televisão noticiava um acidente aéreo.  Acidente aéreo… Ouvi os aparelhos aumentarem o volume, finalmente despertando uma curiosidade na mulher que, agora, me fitava. Desmaiei.

*
– Letícia venha para cá. Assim você vai se machucar.

Minha esposa e filha brincavam no jardim dos fundos. Nenhuma cena no mundo me trazia mais paz do que aquela. Tudo estava caminhando bem. Acabei de ser promovido, a Sara terminou o mestrado, a Letícia deu os primeiros passos. Até pensei em adotar um gato, mas fui convencido que os futuros gastos com histamínicos não compensariam. O pôr do sol se encaixava tão perfeitamente no fundo que parecia um quadro.

Estava tão distraído com aquela cena que o vibrar do celular me assustou, verifiquei a mensagem, “viagem confirmada”. Era um excelente começo de fim de semana. Me juntei a brincadeira com as meninas. Elas ficariam  felizes em saber disso.

*

Hora quadragésima oitava.

Acordei sentindo uma queimação no braço esquerdo. Tinha uma luz forte ligada no meu rosto, não conseguia enxergar direito. Desliguem a luz, ouvi vozes. A luz se apagou e aos poucos pude enxergar, mas o meu braço não parava de queimar. Virei o rosto com dificuldade para saber o que estava acontecendo e vi um médico – deduzi pelo “Dr. bordado no jaleco –  aplicando algo na veia. Minha cabeça não parava de doer. O que aconteceu?, o som da minha voz saiu com rouquidão, meus ouvidos pareciam entupidos. Percebi uma moça chegando mais perto, o senhor passou por uma cirurgia, mas já está tudo bem. Tente respirar fundo. A enfermeira ficou gesticulando com as mãos para me mostrar como inspirar  e expirar o ar, mas o meu peito doía. Tentei fazer o que ela mandava, mas a curiosidade tomou conta de mim. Porque fiz uma cirurgia? aquilo estava muito confuso. O médico apertou um botão na cama para que eu ficasse mais próximo a ele. Não se lembra de nada?, o tom de sua voz preocupou-me. Balancei a cabeça em negativa. Não, eu não me lembrava de nada. Você estava a caminho do aeroporto quando sofreu um acidente de carro.. A voz foi ficando distante, vazia de significado. Eu já não estava mais ali. Senti os meus membros se debatendo na cama, mas não era eu. Não tinha nenhum autocontrole. As lembranças foram me tomando e o cérebro já não sabia mais como respirar. O médico gesticulava algo para que eu me acalmasse, outros chegaram e me amarraram na cama; não lutei. Apenas deixei que o medicamento entrasse e fizesse o trabalho por mim.

*

– Tiago você pegou a lancheirinha, né?

Provavelmente aquela seria a milésima vez que a Sara me fazia essa pergunta. Em todas, com um sorriso no rosto, fiz questão de responder “sim, meu amor”. Ela estava ansiosa por ser a primeira vez que nós três viajaríamos de avião. Ela carregou os celulares umas centenas de vezes, ainda que já estivessem com a bateria cheia. A garantia de não perder um segundo dos momentos da Letícia a cobriu de uma ansiedade, no mínimo, engraçada. Talvez estivesse escondendo um medo de viajar que nem eu tinha tanto conhecimento assim.

Deixei as malas no chão, vi que ela conferiu mais uma vez se o cinto da cadeirinha no banco traseiro estava travado. Tranquei a porta de casa, coloquei as bolsas na mala do carro e a encarei. Ela estava distraída enquanto fazia o movimento com as mãos revelando nervosismo. Abracei-a. Ela respirou fundo e aos poucos a respiração foi desacelerando.

– Estou nervosa.

– Não tem motivos.

– Acho melhor não irmos, Tiago. Estou com uma sensação estranha.

Soltei um riso.

– Calma. A Letícia ficará bem, olha só para ela, até adorou o brinquedo novo.

A Letícia estava sentada na cadeirinha com a metade da cabeça do panda na boca. Balançava as perninhas com o som da música que tocava na rádio. Rimos juntos. Ela assentiu com a cabeça me dizendo que ficaria bem. Entramos no carro e seguimos conversando por um tempo. O sinal estava vermelho quando a Sara tirou o cinto e virou para trás, tentou pegar o panda que havia caído. A Letícia reclamava que não conseguia se mexer. Olhei para as duas pelo espelho retrovisor, era uma cena engraçada.

Infelizmente durou pouco. Não vi e nem ouvi. Muito menos percebi quando e nem como surgiu aquele ônibus. Foi tão rápido. Já estava em cima. Não havia o que fizesse. Só escutei o barulho.

E apaguei.

*

Capítulo 3: 1968

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Capítulo 3: 1968

Traz luz para minh’alma.

Que o frio lá fora seja inversamente proporcional ao calor do que eu sinto por você

 

 

  • Maria, o que você vai fazer com esse bilhetinho?

Maria estava nos seus preciosos 15 min de intervalo da escola quando o Joãozinho lhe entregou aquele papel e saiu correndo. Ela estava no quinto ano, ele estava no sexto. Brincando de apaixonado, resolveu fazer-lhe uma declaração de amor. Já havia lhe comprado bombons, flores e dados as figurinhas do seu caderno – caderno esse que ela considerava de ‘menino’ e as figurinhas que de nada lhe serviu. Agora, se já não bastasse, resolveu entregar um bilhetinho de amor.

  • Eu não acho que o João escreveu isso.
  • Eu nem sei falar essa palavra aí – zombou sua melhor amiga.
  • O que é inversamente pro….po-r….ci-o..nal?
  • Pergunta para ele.

Maria fitou aquele bilhetinho desacreditada que um menino de doze anos pudesse saber o que significava aquelas palavras. Ela mesmo não havia entendido, então, ele também não sabia. Num súbito pulo, sua mente muito esperta, entendeu tudo, e, de euforia, gritou, quase derrubando o sanduíche de sua amiga.

  • Foi aquele irmão dele que faz faculdade que escreveu!

Sua amiguinha contente com a descoberta, assentiu com a cabeça e soltou um risinho. Mas franziu o cenho e fez cara de espanto.

  • Ele estuda para ser advogado né?
  • É… –  Maria respondeu sem muito entender.
  • Papai disse que não devemos falar palavras difíceis.
  • Por quê?
  • Não sei, você devia entregar para a professora.

Abrindo novamente o bilhetinho, Maria resolveu pensar melhor. O que significa o ‘frio lá fora’? Eles estavam no verão, naquela cidade quase nunca fazia frio. O calor era tão forte que todas as salas tinham ventiladores. Ninguém suportava o verão ali. Bateu o pezinho direito no chão e colocou a mão na cintura.

  • Acho que é aquele negócio de analogia que a professora falou – sua amiga arregalou os olhos e respondeu.
  • Não é possível.
  • É.
  • Não é.
  • Vou chamar o João.

As duas, sem hesitar, pegaram suas bolsinhas e foram ao encontro do João. Este, sentado na escada com os seus amigos, avermelhou-se todo com a chegada da Maria.

  • João, quem fez o bilhetinho?
  • Foi eu.
  • Não foi.
  • Foi sim.

Um de seus amigos, revirou os olhos e com as mãos para cima declarou, ele roubou do irmão. Com os olhos semicerrados a Maria olhou para o Joãozinho e balançou a cabeça em negação. Seus cachos tocavam as bochechas naquele movimento. Ela estava certa desde o início, bastava agora entender o que estava escrito. Ele abaixou a cabeça.

  • Que frio lá fora que é esse João?
  • Fala baixo, Maria.
  • Por quê?
  • Meu irmão disse que se alguém visse eu podia ser expulso – dando de ombros o Joãozinho calou-se, mas a amiga da Maria, boba nem nada, reafirmou:
  • Eu disse que o papai fala para gente não falar palavras difíceis.

A Maria começou a se estressar consideravelmente com aquela situação. O Joãozinho entregara-lhe um bilhete de amor, que não foi escrito por ele, roubado do seu irmão, com uma mensagem que ninguém entendia, mas ela não podia perguntar se não ele era expulso. Que confusão nos quinze minutos da Maria! Indignada começou a andar de lá para cá, sem rumo nenhum, pensando.

  • Então me explica, que frio que é esse?
  • Promete que não conta para ninguém?
  • Prometo.

Todos eles, muito envolvidos na revelação do Joãozinho, se encolheram para ouvir melhor os sussurros daquele menino. Prestes a revelar o que estava acontecendo, a monitora do intervalo, que coincidentemente era a professora de história naquele dia, chegou e puxou o bilhetinho. Todos com os olhos arregalados esperaram que a mulher lesse a tão incógnita mensagem. Ela apenas séria fitou as crianças.

O coração de Joãozinho nesse minuto explodia dentro do peito, ele passava a mão na calça repetidas vezes. Pensou em correr, coitado. Para onde iria? A Maria se sentiu culpada, será mesmo que o Joãozinho ia ser expulso? Não que ela gostasse dele, mas que dózinha, era bom estudante. Sua amiga começou a comer o sanduíche porque estava nervosa, a voz de seu pai repetia em sua cabeça.  A monitora colocou o bilhete no bolso da calça e questionou.

  • Quem fez isso?
  • O irmão do Joãozinho – respondeu, rápido demais, um de seu amigos. Todos balançaram a cabeça.
  • É verdade – soltou a amiga da Maria, com a boca cheia de sanduíche.

A monitora respirou fundo. E agachando-se para ficar perto das crianças, falou em voz mansa.

  • Nunca falem disso para ninguém. Podem ir para a sala.

Sem questionar, foram todos bem rapidinhos para suas respectivas aulas. Maria na aula de matemática, sala 05. Joãozinho na aula de geografia, sala 06. Uma do lado da outra. Mas antes de entrar, Joãozinho disse.

  • Você gosta de mim Maria?

Revirando os olhos, zombou.

  • Tomara que seja expulso.

Capítulo 2: 2050

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Capítulo 2: 2050

Às vezes a vida te presenteia com uma alma companheira e então, vocês vivem a maior parte da vida juntas sob felicidades e tempestades.

E mesmo que a vida – por mais contraditória que pareça – separe os dois corpos, as almas nunca estarão desligadas.

Anna dormia em seu quarto quando um barulho de vozes vindo do primeiro andar a acordou. Todas as noites antes de dormir sua mãe trancava a porta do quarto para evitar que a  pequenina perambulasse pela casa, mas dessa vez seu pai quem a colocou na cama e, infelizmente, ele não teve o mesmo cuidado.

Quando seus pés tocaram o chão e sentiu como estava frio, encolheu-se de volta na cama. Apesar de parecer uma má ideia, as vozes não cessavam e deixavam-na cada vez mais curiosa. Anna levantou-se e foi em direção ao barulho. Decidiu encarar aquela aventura noturna. A mamãe ficaria orgulhosa, pensou.

Quando Anna chegou no corredor e parou em frente a escada, percebeu o quanto estava escuro lá embaixo, sua barriga começou a formigar. Soltou um risinho. Era um grande momento de descobertas. Entre a curiosidade e o medo surgiu a empolgação. A mamãe sempre diz para descer segurando o corrimão.

Um pé de cada vez. Contou um, dois, três, quatro… As vozes ficaram ainda mais altas e contar os degraus já não tinha mais tanta importância assim. Viu uma brechinha de luz saindo da sala de leitura e à medida que se aproximou, ficou mais quente. Notou que a lareira estava ligada e correu em direção ao calor. Anna adorava aquela sala, os dois sofás que pareciam tão grandes conseguiam acomodar todos os seus brinquedos e ainda sobrava-lhe espaço. Era incrível.

As estantes eram tão cheias de livros que quando sua mãe dizia que há um universo dentro de cada um deles, a deixava ainda mais encantada. Aquela sala tornava as terças-feiras o seu dia favorito, afinal, era o dia de toda a família reunir-se para a hora da leitura.

Parou atrás do sofá quando viu seu pai falando alto, nunca tinha visto isso antes, aquilo a assustou.

Temos que tirá-la daqui. Não dá mais.

Sobre o que ele estava falando? Chegou mais perto.

Desde o início eu não concordei com essa ideia. Você sabe…

Sua mãe apareceu chorando, enrolada num cobertor. Seu cabelo estava desgrenhado e sua fisionomia era cansada. Quantas noites não dormia? Balançou a cabeça negativamente para a xícara de café que seu pai tentava lhe entregar.

Você sabe que eu a amo. Não posso simplesmente abandoná-la. É cruel. E ela só tem a mim – longa pausa – a nós dois.

Essa frase ficou pairando no ar. Ninguém disse mais nada. A pequena Anna não sabia de quem eles estavam falando. Queria saber mais. A sua mãe nunca gesticulou daquele jeito. Porque eles iam querer abandonar alguém? De quem poderiam estar falando? Sua empolgação esvaziou-se e deu lugar à raiva, ao medo e ao receio de ser descoberta. Ficou ali, abaixada, esperando que eles falassem mais.

Seu pai, andando de um lado para o outro colocou a mão na testa. Respirou fundo e agora falou mais baixo.

Emily, por favor. É o melhor para ela conviver com outras pessoas de sua idade. Lá terá atenção total, alimentação adequada, lazer. Aqui não podemos dar nada disso. Trabalhamos, temos nossos compromissos…

Anna abraçou sua perna bem forte e começou a chorar. Por que eles queriam mandá-la embora? Ela tinha se comportado bem. Tinha sido uma boa filha. Na escola era como se fosse a melhor aluna de todas. Tinha dificuldades com matemática, mas era só matemática. A mamãe dava-lhe um beijo todas as noites antes de dormir. Ela disse que me amava. Ela disse. E Anna não conseguia entender. Tomava café da manhã, almoçava e jantava todos os dias. E às vezes a comida nem era tão boa assim, odiava legumes. O que o papai estava pensando sobre alimentação adequada?

Emily desde o início contou que era adotada. Anna sabia que seus pais biológicos eram outros, mas ela não queria ir a lugar algum. Queria ficar ali, com eles. Sempre quis.

Tudo bem, eu não aguento mais. Faça o que tiver de ser feito.

Essas foram as últimas palavras de sua mãe. Anna levantou-se e saiu correndo de volta ao seu quarto. Nem prestou atenção se seus pais a viram ou não. Nem sabia mais se poderia chamá-los assim. Queria enrolar-se debaixo do cobertor e chorar. Sentia-se abandonada.

Mas, ao virar para a escada, assustou-se por perceber que sua avó também estava ali, olhando pela brechinha da porta ouvindo aquele diálogo. Correu para os braços dela e chorou.

Anna, não chore. Não é sobre você, minha querida.

Capítulo 1: 1897

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Capítulo 1: 1897

Quando fecho os olhos posso imaginar cada uma das constelações que cobrem o teu corpo.

Ele.

Havia um silêncio desconcertante na vila. O sol estava forte e o sino soava pela terceira vez. Olhei o relógio, marcava 12h02. Dois minutos atrasada. Ouvi um barulho, descarga de ansiedade percorreu o meu corpo, mas eram apenas duas crianças carregando uma cesta de frutas. Ótimo. Quando voltei o olhar para a velha casa de madeira, lá estava ela. Linda. O vestido era preto, sua mangas longas tinham um caimento perfeito e a gola alta revelava insegurança. Um lenço cobria seus cabelos castanhos e deixava sua expressão ainda mais carregada de preocupação. Aquilo me enfureceu, porque eu não pude, eu prometi e não pude mantê-la segura. Olhei em volta para garantir que ninguém a veria ali, quando ela estendeu a mão para mim. Estava gelada. Ela se aproximou e sussurrou ao meu ouvido, respire. Sabia que eu não estava bem e queria acabar com isso. Retribui com um sorriso.

Ela.

Não sei ao certo que horas acordei, porque não me lembrava de ter dormido. Passei a noite sozinha, não pude fechar os olhos. Agora, quase no horário combinado, sentada de frente para o espelho, pude ver como as olheiras me denunciariam. Fechei os olhos e respirei fundo. Calculamos esse dia, por uma semana pensamos em cada detalhe que nos poderia acontecer e, mesmo assim, segundos antes, eu não conseguia me concentrar. Levantei, peguei a minha mala e desci as escadas. Foi quando pude vê-lo e naquele instante tudo fez sentido. Ele estava de cinza, eu o amava de cinza, o relógio na mão demonstrava estresse. Ele não podia se culpar por tudo que estava acontecendo, precisava acabar  com isso. Estendi a mão para tocá-lo. Estava quente. Falei para ele baixinho, respire. Seu sorriso me encheu de esperança. Como ele conseguia? Deu-me apoio para entrar no carro, enquanto guardava a mala verificou se não tinha ninguém nos observando. Quando sentou ao meu lado, senti que teríamos muito o que conversar.

Como foi a noite? – Sua voz era trêmula.

Tranquila – Confesso que não sei mentir.

Você tem certeza que é isso o que você quer? – Agora ele me fitava com seus lindos olhos castanhos, mantive a postura.

Nunca duvidei.

Ele.

Seus olhos estavam cansados. É claro que era uma péssima mentirosa, mas não insisti. Queria uma resposta e, como sempre, me surpreendeu. Diante daquela situação, mesmo sabendo que seu marido está a poucos minutos de nós, junto com todo o clérigo e a cidade, eu não podia evitar. Não queria evitar. Toquei seu rosto, percebi sua respiração acelerada. Deixe-me beijá-la, havia um tom de desespero que me envergonhava. Ela não respondeu, mas também não desviou o olhar. Apenas parou e me observou. Senti que era um não e me afastei. Quando a conheci seis meses atrás, sabia que era um mulher incrível, mas também sabia que carregava um peso. Sua energia me fissurou. Nos envolvemos de tal forma que o mundo parecia não fazer sentido se eu não pudesse vê-la. Confessou-me que queria o divórcio. Era esposa do Prefeito, amigo do Padre. Tinha poucos amigos, mudava-se pela terceira vez. Prazerosamente mostrei-lhe a cidade quando percebi-me apaixonado. Foram tantos dias que tínhamos construído o nosso lugar preferido, longe do centro e próximo a antigos trilhos por onde passava o trem. Abri o meu coração para ela e nunca me arrependi, apesar de sempre esquecer que era casada – simplesmente porque não queria me lembrar, porque não fazia diferença para mim, e esse era o meu fardo.

Ela.

Ele pediu para me beijar. Não conseguia respirar direito, em seis meses essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Não podia suportar o seu olhar de desapontamento, mas não tinha coragem. Quando ele começou a dirigir, senti que fitava o horizonte perdido em seus pensamentos. Era ele, eu sabia que era. Minha mãe sempre me disse que quando chegasse a hora eu simplesmente sentiria. Infelizmente o mundo real não depende do que queremos, não somos livres, de nenhuma forma. Agora eu segurava as minhas correntes. O silêncio perdurou e se concretizou o que imaginei, aquela seria uma longa e exaustiva viagem. Decidi não dizer nada, lidamos bem com o silêncio. Sua presença me acolhe e isso basta. Espero que a ele também. Quando cogitei a possibilidade de tranquilizar-me e observar a paisagem, escutei um barulho. Olhei para trás. E lá estava a minha corrente, acompanhado de uma multidão enfurecida. É ele.

Mal terminei de falar e ouvi os tiros. O barulho do vidro estourando me assustou. O carro acelerava, mas pareciam cada vez mais perto. Ouvia os gritos: vagabunda!. A felicidade parecia tão distante agora. Olhei para o lado, sabia que aquilo não terminaria bem. Não tinha como terminar bem. Encarei-o. Pouco tempo depois que nos conhecemos ele admitiu que me amava. Mesmo sabendo que era impossível, mesmo respeitando meus nãos e minhas limitações, ele sempre estava lá. Nasci para cuidar de você – foi o que ele me disse antes de toda suposição que eu traía o meu marido e que, como uma mulher cínica que era, pedi o satânico divórcio para me esconder. O Padre passou um mês em minha casa para me ensinar bons modos e valores da família.

Devia ensinar ao meu marido – eu pensava.

Mas agora que tudo parecia perdido, eu é que deveria cuidar dele.

Eu amo você – aquilo saiu quase como um grito.

O que? – não foi uma dúvida, mas sim, incredulidade.

Amo você, Rob. Amei desde o primeiro instante que te vi.

Quando terminei de dizer aquelas palavras, me senti livre. Arranquei as minhas correntes. Agora precisava terminar com aquilo. Virei-me para a porta, abri-a e fechei os olhos. Respirei fundo e me joguei.